Por Marcel van Hattem,mestrando em Ciência Política pela Universidade de Leiden, Holanda
Aarhus é uma cidade pacata. Quem caminha pelo centro histórico num dia de semana, a julgar pela tranquilidade da paisagem urbana, não imagina que possa abrigar uma das mais respeitadas universidades da Europa (de facto, uma das cem melhores do mundo), além de ter quase 250 mil habitantes. Foi, contudo, um jornal desta cidade dinamarquesa, pacífica e ordeira, que revelou ao mundo uma discussão latente na Europa: em Setembro de 2006, ao publicar doze imagens retratando o profeta Maomé, uma delas em que ele aparecia com uma bomba amarrada na cabeça no lugar do turbante, o jornal local Jutland Post gerou protestos que ultrapassaram todas as fronteiras. Muçulmanos em diferentes partes do mundo indignaram-se contra os desenhos: retratar o profeta é ofensa grave para os religiosos. Já na cultura dinamarquesa e europeia, a liberdade de expressão e a tolerância tem clara preferência.
Hoje, mais de 5% da população europeia é muçulmana. Só na Holanda, chegam a quase um milhão dos 16 milhões de habitantes. Vindos do norte da África e da Turquia, os imigrantes foram atraídos pelos governos europeus durante o pós-guerra para prover o mercado de mão de obra barata. A política de atrair imigrantes cessou em meados dos anos 70 do século XX, pois muitos dos que já residiam na Europa ficaram desempregados com a crise económica, sem porém voltarem aos seus países de origem.
O processo migratório desde então intensificou-se, contradizendo todos os prognósticos: os imigrantes já radicados, principalmente muçulmanos, passaram a convidar familiares para viver aqui também; os homens passaram a viajar à terra de origem em busca das esposas, muitas vezes forçadas a enfrentar um casamento arranjado e acompanhar o marido na volta. Muitos não conseguem ou não querem integrar-se à nova sociedade em que vivem. Continuam a falar árabe, por exemplo, melhor do que a língua local. Paul Scheffer, conhecido político e escritor holandês, professor de Sociologia Urbana da Universidade de Amesterdão, advertia já no ano 2000 num famoso artigo publicado na imprensa holandesa de que havia apenas uma conclusão possível desse processo: a integração na Europa ocorreria apenas em casos excepcionais, longe de se tornar uma regra. Os atentados terroristas nos Estados Unidos, em 2001 e, depois, na Europa, dificultaram ainda mais a já difícil integração e adicionaram um novo ingrediente ao processo: a radicalização dos jovens muçulmanos. Paradoxalmente, pois, uma regra acabou por se consolidar: cada país, dentro do seu contexto, está lidando com um novo problema que ameaça a própria cultura de tolerância europeia.
O professor Lasse Lindekilde, doutorado em Ciência Política pela Universidade de Florença, é especialista no assunto e falou à Revista Voto sobre o tema no intervalo de uma das suas aulas aos mestrandos do curso de Jornalismo, Média e Globalização, na Universidade de Aarhus. "A União Europeia, o Reino Unido, a Holanda e a Dinamarca foram os primeiros a propor políticas antirradicalização há cinco, seis anos. Desde os ataques terroristas em Madrid (2004) e Londres (2005), para ser preciso. Foi aí que todo o discurso radical na Europa iniciou. Na Dinamarca, mais especificamente, após a publicação das imagens no Jutland Post". Com a prisão, em 2008, de dois tunisinos e um marroquino nascido na Dinamarca por planearem um atentado contra o cartunista Kurt Westergaard, a necessidade de tais políticas pareceu ainda maior.
O foco dos estudos de Lindekilde são os jovens que as políticas antirradicalização dinamarquesas visam atingir. "Esses jovens não acreditam na democracia. Todos os entrevistados da nossa pesquisa podem ser considerados não-democráticos. Os jovens muçulmanos acreditam que cabe a Alá fazer as leis; que eles jamais votariam numa eleição dinamarquesa, que nunca participariam de um sistema democrático", avalia o professor. "Entretanto, eles não têm a intenção de fazer da Dinamarca um califado, de instalar um regime teocrático aqui, de destruir a democracia dinamarquesa", prossegue, distinguindo entre ser anti-democrático e não-democrático. O anti-democrata teria por finalidade destruir a democracia. O não-democrata convive com ela, sem porém aceitá-la ou participar dela.
A vida do cartunista autor das imagens mudou radicalmente nos últimos anos, a ponto de contar com permanente protecção policial. Em contrapartida, também os muçulmanos na Dinamarca sentiram mudanças. "Muitos muçulmanos acusam as políticas antirradicalização de serem discriminatórias, apenas orientadas contra muçulmanos; que são simplesmente a continuidade da forma peculiar como os dinamarqueses descrevem os muçulmanos como problemáticos e causadores de problemas". A implementação dessas políticas antirradicalização, portanto, segundo Lindekilde, não é garantia de pacificação social: "muitas entidades muçulmanas vêem essas políticas como discriminatórias e marginalizadoras e poderíamos concluir que elas geram mais radicalização no mesmo momento em que tentam combatê-la. O nosso objectivo é tentar descobrir que mecanismos podemos usar para evitar que isso aconteça".
Na Holanda, na Dinamarca e nos demais países europeus, o sentimento anti-muçulmano tem, de facto, crescido: partidos têm se utilizado do discurso anti-islão para aumentarem as suas bancadas enquanto os muçulmanos se integram cada vez menos na sociedade em que vivem. A exemplo de Aarhus, por trás da aparência pacata e de tolerância, o mundo descobriu que há, definitivamente, uma grande tensão social em curso na Europa.
Fonte: De Olho na Jihad
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