Opiniões DN

Secularização e destino da Europa

Aí está um tema fundamental. Mas, quando se reflecte, é necessário perceber que há vários sentidos de secularização.

1. O primeiro sentido - secularização vem do latim saeculum (mundo) - tem a ver com a autonomia das realidades terrestres. A Bíblia é essencialmente dessacralizadora da natureza, da história e da política, precisamente porque a criação ex nihilo por Deus, pessoal e transcendente, criando, não por necessidade, mas livremente e por amor, implica a autonomia das criaturas.
Este sentido de secularização é particularmente importante para a política, que deve estar separada da religião. O Estado deve ser laico e não confessional. Jesus tinha dito: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus." Mas também as ciências, a economia, a filosofia, a própria moral são autónomas, com as suas próprias leis, sem pedir legitimação à religião.

2. Há um segundo sentido de secularização. Tem a ver com aquele processo mediante o qual, concretamente na modernidade, se pretendeu realizar no mundo o Reino de Deus. A modernidade ainda era teológica, na medida em que queria, pela razão, pela ciência, pela técnica, pelo progresso ilimitado, trazer para a imanência, realizando-as, ideias religiosas da fé cristã: messias, salvação, consumação da história - o Além deveria realizar-se no aquém. Pense-se em Feuerbach, Marx, Condorcet, Bloch... O seu ateísmo era de algum modo "positivo", no sentido de que não negava Deus pura e simplesmente: o que queria era realizá-lo no mundo e na história intramundana.

3. Que sucedeu no nosso tempo? As grandes esperanças da modernidade ruíram. O "socialismo real" faliu, o progresso científico-técnico põe problemas graves, sobretudo por causa da ecologia, a razão já se não encontra divinizada, assiste-se ao fim das meta-narrativas - só há pequenas histórias, o pensamento é débil (il pensiero debole, de G. Vattimo). Assiste-se assim a uma crise geral de Deus, na medida em que a descrença parece normal - pelo menos na Europa, já não se sabe se Deus existe ou não, e reina a indiferença, numa sociedade que já é, em grande parte, pós-cristã.

Consequências: encontramo-nos cada vez mais inseguros e assiste-se ao aumento do consumo de drogas e antidepressivos. A perspectiva é cada vez mais pragmática - o que interessa é o aquém sem Além: a vida depois da morte já não parece sequer ser problema. Continua a festa do consumo, mas os europeus andam cada vez mais insatisfeitos. Não há filhos nem futuro. É a desorientação e a consumação do niilismo.
A actual situação é fruto do terceiro sentido de secularização: secularização da secularização, isto é, fim da secularização moderna e secularismo radical. Deste modo, a questão essencial é precisamente a crise dos valores e do sentido. Como viu o filósofo Georges Gusdorf, "Deus morreu, a História enlouqueceu, o Homem morreu: tudo fórmulas desesperadas que exprimem a tomada de consciência, e o ressentimento, da ausência de sentido". Não colocando sequer a questão de Deus enquanto questão, que é a questão do sentido último, a Humanidade europeia sucumbe ao imediatismo, a uma visão fragmentária do aqui e agora, sem horizonte de ultimidade. Aí está então a falta de força anímica, de projecto, de futuro. Thanatos toma conta da Europa.
Isto tem, evidentemente, repercussões também na economia e na democracia. Para quê poupar, por exemplo, e investir no futuro? Václav Havel, um dos europeus mais lúcidos do século XX, preveniu: "Pela primeira vez na História, assistimos ao desenvolvimento de uma civilização deliberadamente ateia. Deve alarmar-nos". "A transcendência é a única alternativa à extinção." E o agnóstico M. Gauchet disse: "O que ameaça a democracia, hoje, é o vazio, a futilidade, o esquecimento, a facilidade, o curto prazo, a superficialidade. As religiões, e o Cristianismo em particular, têm o sentido do essencial, do trágico, do mistério da aventura humana, coisas que a democracia facilmente ignora. Elas podem ser decisivas para a democracia."


Anselmo Borges


Cavaleiro do Apocalipse

O ensaísta britânico Christopher Hitchens faleceu a 15 de Dezembro. Estranhamente todos os seus obituários na imprensa fizeram questão de sublinhar como o autor morrera bem, rodeado pela família e amigos. Isto não costuma encontrar-se nos elogios fúnebres.
A importância da serenidade do óbito vem de Hitchens ser famoso como líder do "novo ateísmo". Pertencia até aos auto-apelidados "quatro cavaleiros do Apocalipse", com os americanos Daniel Dennett e Sam Harris e o britânico Richard Dawkins (manifestando aliás algum paroquialismo e imperialismo anglófono, ao omitir autores influentes de outras culturas). O traço principal do grupo não é o ateísmo, bastante comum, mas o violento e persistente ataque à religião. O que os marca não é aquilo em que acreditam, mas a insistência em criticar os que discordam. A própria referência aos cavaleiros (no original, como se sabe, peste, guerra, fome e morte) mostra o elemento negativo.
O ateísmo é a doutrina religiosa com o dogma de que Deus não existe. Embora se considere científica é uma crença como as demais, pois relativamente à divindade o ser humano nada conhece. A única coisa que podemos é formular convicções. Eu acredito que Deus existe, Hitchens tinha a certeza que não, mas ninguém realmente sabe. Um dia veremos, mas então será demasiado tarde.
O ser humano vive na sua natureza o drama fundamental de não compreender o sentido do mundo e da vida. De onde vim? Para onde vou? Que estou aqui a fazer? Somos os únicos a colocar estas questões, sofrendo a dor de não saber a resposta, da qual depende crucialmente o nosso quotidiano. Para viver todos os dias seria decisivo entender a finalidade última da realidade, que ignoramos. Por isso, relativamente ao sentido da existência e à identidade de Deus, todos estamos na posição da fé. Formulamos crenças e apostamos nelas a nossa vida.
Naturalmente que só podemos fundar a nossa actividade em algo que tomamos como verdadeiro. As bases da nossa existência, mesmo se nunca conhecidas com certeza, têm de ser os pontos mais firmes da nossa identidade. Por isso se defende com mais afinco aquilo em que se acredita do que o que sabemos com segurança. Há mais calor na proclamação da justiça que do vento. Isso torna sempre difícil lidar com as pessoas que centram a sua existência em referências diferentes. Não é nada fácil conversar com alguém que defende princípios radicalmente opostos aos nossos. Imagine-se o embaraço no convívio com promotores do canibalismo, escravatura ou poluição. Por isso é tão comum perder o respeito pela posição alheia, agredindo-a, retórica ou fisicamente. As seculares dificuldades no diálogo inter-religioso nascem disto.
Mas existe aqui uma assimetria curiosa. Se eu escrever algo contra uma fé alheia ou atacar o ateísmo, sou intolerante e fanático. Mas um ateu que critique abertamente a religião e até faça disso carreira profissional, manifesta liberdade de expressão. Durante muito tempo atacar a Igreja era, não perseguição e chauvinismo, mas suprema prova de democracia e humanismo. Os mais ferozes anticlericais chamavam a si mesmos "livre pensadores".
O "novo ateísmo" caracteriza-se precisamente por esta dureza contra a religião, o que é compreensível por várias razões. Primeiro por ser comum em crenças pequenas e inseguras. Depois porque este novo ateísmo tem de viver na evidência do fiasco do antigo. Até há cem anos todos os pensadores cépticos acreditavam piamente na morte próxima da religião e num futuro ateu, crença que falhou redondamente.
Acima de tudo, o ateísmo é a certeza de que a vida não tem sentido e a morte é o nada. Por isso era tão importante observar o fim de Christopher Hitchens. Este autor, a quem os conhecidos descrevem com uma personalidade encantadora, sabe agora se a sua aposta é certa ou errada. Como pessoa religiosa, rezo sinceramente pela alma que ele achava não ter. Faço-o confiante no sentido de humor do Senhor do universo, que deve esmerar-se em receber com especial delicadeza aqueles que pessoalmente O negam.


Pagar dívidas

Em tempos de dificuldades surgem as discussões mais esdrúxulas e os argumentos mais espantosos: o País anda assolado pela dúvida de pagar as dívidas. Se os débitos antigos são a razão da crise, porquê honrar tais compromissos?
A argumentação usa justificações políticas, económicas, financeiras ou comunitárias, mas em geral omite o essencial. Invoca-se a estabilidade do euro e a crise internacional, a credibilidade soberana e o acesso a futuros créditos, mas quase ninguém afirma o motivo óbvio: pagar as dívidas é a única atitude honesta e decente. Parece que no aperto, a conveniência anula as razões éticas, logo no momento em que são mais necessárias, precisamente por haver gente a sofrer.
Isto não significa que essas análises esqueçam os valores. Aliás, grande parte da discussão apresenta-se como moral, mas noutro nível. Se, como dizem os cartazes, "A troika manda roubar ao povo para dar aos banqueiros", então a própria justiça exige que não se paguem as dívidas. Fala-se, não do nosso dever em cumprir os contratos e honrar responsabilidades, mas do alheio. Refere-se não o calote, mas os abusos que alegadamente o justificam.
É verdade que os melhores filósofos afirmaram que em caso de necessidade todos os bens são comuns, porque o direito à vida e dignidade se sobrepõe à propriedade privada. Também a ciência económica diz que a ameaça de depressão recomenda a ambas as partes o alívio dos débitos. Mas essas são situações-limite, longe de um produto per capita de 20 mil dólares e recessão a 2%.
Será que no primeiro quartel do século XXI é preciso explicar que o dinheiro que os banqueiros emprestam não é deles mas nosso? Será que não sabem que é o povo depositante a ser roubado se o povo devedor não honrar os compromissos? Há 200 anos, quando nasceram as ideologias que alguns hoje revivem, já era forçado o simplismo do embate entre uma classe de ricos parasitas à custa dos proletários escravizados. Hoje, na globalização e capitalismo popular, o mito perdeu toda a plausibilidade. Não existe conflito entre banqueiros e povo. Aliás, as instituições financeiras estão mais zangadas com a troika do que os funcionários públicos.
Outra variante coloca a questão entre a Alemanha rica e os pobres gregos e lusitanos. Os quais andam há décadas a comer dos fundos estruturais que os ricos da Comunidade enviam e encheram os bancos deles com a sua dívida pública e privada. Agora, quando os tais ricos exigem alguma austeridade como condição para mais uns milhares de milhões de novos empréstimos, acusam-se os alemães de falta de solidariedade europeia. Falta de solidariedade!?
A lógica que suporta as queixas é uma velha falácia. A sociedade é injusta e eu sinto-me enganado; por isso é legítimo faltar aos compromissos e abusar, o que só por si torna a sociedade um pouco mais injusta. Como me considero tratado com pouca dignidade, tomo um comportamento indigno, que confirma o suposto tratamento inicial. Foi esta espiral de infâmia e desespero que dominou a Europa há cem anos, conduzindo ao extremismo político e a duas guerras mundiais.
Em países civilizados, membros de inúmeros fóruns internacionais e signatários de múltiplos tratados e proclamações, era de esperar que estes temas básicos fossem pacíficos e estabelecidos. Mas estes debates mostram uma das verdades mais essenciais: a humanidade nunca pode dar como adquirido qualquer valor, por mais básico que seja. Cada geração tem sempre de reaprender todas as atitudes elementares, como em cada novo dia, cada um de nós tem de se comprometer de novo com uma vida digna e nobre.
A civilização é um bem sublime e frágil. Foi após as eminentes conquistas do espírito alemão iluminista e romântico que os nazis cometeram atrocidades que os seus pais e filhos nem conseguem conceber. Hoje, as questões do aborto e da eutanásia reabrem discussões de direitos fundamentais que os nossos avós consideravam pacíficas. Perante casos tão extremos, não pode espantar ver pessoas inteligentes e sérias duvidar do dever de pagar dívidas.



João César das Neves


A jihad ainda é global

Vinte anos depois do golpe na Argélia que negou à Frente Islâmica de Salvação a governação depois do sucesso eleitoral, os movimentos islâmicos radicais mostram enorme capacidade de sobrevivência. Vemos isto no Norte de África, Médio Oriente, costa oriental africana, Ásia Central ou Cáucaso. Em muitos casos é a tensão com os militares que define o rumo do país. Noutros, o radicalismo age de forma transfronteiriça aproveitando a ausência de instituições e o vazio de poder: Estados falhados ou a caminho do colapso são, por isso, apetecíveis para a jihad. Se forem ricos ou estratégicos, melhor ainda. 1992 foi marcante para o radicalismo islâmico. Vencem no Afeganistão contra um governo pró-soviético, lutam na Bósnia contra os "infiéis" de Belgrado e assumem protagonismo na Argélia - antes e depois do travão militar - e resistem na guerra civil com o Grupo Islâmico Armado. Em cinco anos morreram mais de cem mil pessoas. A ligar esta geografia estão os "veteranos do Afeganistão", sendo o contingente argelino o maior atrás do egípcio. A financiar a deslocação do Afeganistão para os Balcãs, está a Arábia Saudita. A aproveitar a globalização da jihad, organizando-a, está a Al-Qaeda. Todos sabemos o que se seguiu em Nova Iorque numa bela manhã de Setembro. Em 2012, a retirada do Afeganistão e o aproveitamento do vazio pelos extremistas estão aí à porta. Dali, tendo à mão proveitosas rotas de narcotráfico, o potencial da Internet e o Norte de África e Médio Oriente em ebulição islâmica, é provável que se assista a nova fase desta jihad global, que pode ser mais dispersa (África Ocidental, América Latina), ter outra força para influenciar partidos no poder, ser mais rica e conhecedora. Pior do que uma gravíssima crise económica, só uma imensa crise de segurança por cima dela. Nem aquela se resolve, nem esta se controla. E continua a haver espaço para as duas.


A ilusão liberal do Egipto

Um ano após o início das revoltas, todos no Egipto tentam manter-se à tona. A maior parte sobrevive à contracção da economia, turismo e emprego. Os militares garantiram uma esfera de influência na transição, no governo interino, na redacção da Constituição e, eventualmente, numa candidatura presidencial. Mostram aos EUA (de quem financeiramente dependem) que são o garante do equilíbrio com os islamitas e quem zela pela vigência do acordo de paz com Israel.
Os grupos revolucionários tentam perpetuar o espírito de Tahrir, sem revelar capacidade de organização e sucesso eleitoral. Os partidos constituídos reflectem a fria perceção dos eleitores: os liberais, sem estrutura e representação em escala digna dos seus propósitos, desiludiram; os salafistas espelham o Egipto escondido dos anos de Mubarak e menosprezado na imprensa ocidental; a Irmandade Muçulmana (IM) acrescenta às oito décadas no terreno um resultado confortável e, aparentemente, incapaz de assustar Washington, que logo enviou John Kerry ao Cairo para conversações directas. No meio disto, El Baradei, o candidato preferido no Ocidente que pouco dizia aos egípcios. A sua desistência das presidenciais mostra dois importantes pontos: a negociação política no Egipto dá-se entre militares e a IM, deixando de lado os liberais; prevendo falta de apoios e Constituição que esvaziará a presidência, resguarda-se para um contexto futuro mais favorável.
Entretanto, Washington regressou ao pragmatismo e enviou o idealismo de Clinton e Bush para as calendas. Obama percebeu que é com a IM que tem de trabalhar para garantir três coisas: um Egipto aliado dos EUA e de Israel; o isolamento dos salafistas; a convivência entre militares, governo e Parlamento. Os EUA não quiseram colocar todos os ovos na cesta liberal e estes, um ano depois, são secundários num Egipto pelo qual lutaram. Um dia saberemos se Obama decidiu bem.


Bernardo Pires de Lima

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