Ainda o Aborto Ortográfico...

Fim do Português como nós o conhecemos. Nenhuma razão de fundo justifica este passo a mais na degradação da ortografia, logo da língua. Trata-se de uma medida burocrática, abusiva e infelizmente conforme com os tempos e com a indiferença e a ignorância cultural das nossas elites políticas.

José Pacheco Pereira


A nossa língua tão acrisoladamente dinâmica, que se mais mundo houvera lá chegara, teve há poucos dias mais uns vislumbres de triunfal expansão. O Governo admitiu a hipótese de Portugal passar a exportar os seus tão habilitados professores para os quatro cantos do mundo, e, em especial, para as Áfricas e para os Brasis.
Parece todavia que esses ingratos países, aos quais nos tínhamos dignado dar a língua, a independência e a razão de ser, não apreciaram a oferta por aí além. E terão feito saber que passam bem sem o magistério assim prestimosamente disponibilizado de tantos agentes pedagógicos, tão lastimáveis quanto impreparados, ministrado naquela que, com pouca corrupção e alguma hiperbólica fantasia, os deuses costumavam crer que era a língua latina.
Foi uma atitude deveras displicente, tomada não apenas na quadra natalícia que atravessamos, mas numa ocasião em que se proclama, com base nos mais acurados estudos especializados em metafísicas do bláblá, que a língua lusitana, essa "última flor do Lácio", só ela, imagine-se, vale nada menos do que 17% do PIB. Mas compreende-se:
Nem Angola nem Moçambique estão interessados em professores que se ponham a ensinar criancinhas e adultos analfabetos a escrever grafias suculentas como "perceção", "receção", "espetador", "precetor", e mais coisas assim, porque nos seus territórios nacionais está oficialmente adoptada a ortografia portuguesa e não um reles enxovalho para a língua comum.
Quanto ao Brasil, com todas as divergências já implicadas pela ortografia brasileira, o saudável país irmão também não está interessado em que as turmas escrevam "perceção", "receção", "espetador", "precetor", e coisas assim, que lhe desfiguram a maneira de escrever e de falar.
O resultado está bem à vista: o status quo ortográfico, no universo da língua portuguesa, vai manter-se com três grafias oficiais e divergentes: a portuguesa propriamente dita, a vigorar plenamente em Angola e Moçambique; a brasileira propriamente dita, institucionalizada e praticada no Brasil desde há décadas; e, last but not least, a imbecil, utilizada e imposta em Portugal por políticos que não sabiam nem sabem o que estão a fazer, que atropelaram a Constituição e a Lei e que só fazem jus ao qualificativo de irresponsáveis sem escrúpulos.
Duas conclusões neste fim de ano tão nefasto. O direito à greve não é um direito absoluto e o Acordo Ortográfico não está em vigor. Enquanto estas coisas não forem corrigidas, Portugal continua a ser uma vergonha sindical, uma vergonha cultural e um estado de torto.


Vasco Graça Moura


Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes cês e pês me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. São muitos anos de convívio.
Quando eu escrevo a palavra ação, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o c na pretensão de me ensinar a nova grafia. De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa. Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim. São muitos anos de convívio. Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes cês e pês me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora: não te esqueças de mim! Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí. E agora as palavras já nem parecem as mesmas. O que é ser proativo? Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.
Depois há os intrusos, sobretudo o erre, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato. Caíram hifenes e entraram erres que andavam errantes. É uma união de facto, para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os és passaram a ser gémeos, nenhum usa chapéu. E os meses perderam importância e dignidade, não havia motivo para terem privilégios, janeiro, fevereiro, março são tão importantes como peixe, flor, avião. Não sei se estou a ser suscetível, mas sem p algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham.
As palavras transformam-nos. Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do cê não me faça perder a direção, nem me fracione, nem quero tropeçar em algum objeto abjeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um cê a atrapalhar.

Manuel Halpern

No comments:

Post a Comment