As hesitações europeias
O conjunto de circunstâncias que obrigam a prestar cuidados ao processo da unidade europeia faz destacar a questão de prever, com a hesitação dos tempos, em que medida os chamados poderes emergentes tendem para mudar a ordem mundial ou, talvez com mais rigor, para introduzir uma ordem na situação caótica existente.
No que respeita à ordem que se imaginou ressurgir, a partir da Carta da ONU, depois do fim da guerra fria, o facto que pareceu mais saliente foi a chamada desconexão entre a geopolítica, até então dominante, e a geoeconomia. No caso dos EUA o facto parece evidente, tendo em vista que a Europa, embora em crise, representa mais de um terço do comércio mundial (Milani), e que os poderes emergentes crescem de maneira visível.
Quando, em 2011, Jim O'Neill reuniu no termo BRIC a referência ao grupo constituído pelo Brasil, Rússia, Índia e China, previa a separação da geopolítica e da geoeconomia mundiais, mas também implicou em tal observação o facto de um pluralismo de regionalismos vir a pesar em qualquer redefinição da ordem mundial que falta.
Logo o G8 da época poderia ser visto como um regionalismo que defrontava, sem que a inovação estratégica, se existente, tivesse facilmente conseguido uma coerência interna dificultada pela heterogeneidade das tradições, dos Estados envolvidos, e de facto pouco de novo apareceu na formação de novas entidades politicamente plurais.
Para os observadores que coloquem a geoeconomia como abrangente da problemática dominante, a questão da geoestratégia, em mudança também acelerada, desde o fim da guerra fria, pode não aparecer como uma dificuldade maior. Nessa perspetiva, até uma espécie de diferenciação económica poderia enriquecer tal espécie de regionalização dos agentes da nova ordem em vista, por exemplo, o Brasil pondo o acento tónico nos produtos agrícolas, a Índia na área informática, a China para os produtos manufacturados.
Mas é difícil prever e admitir que embora seja evidente a importância crescente da invocada desconexão entre a geopolítica e a geoeconomia, ou, usando termos mais clássicos, a diferenciação das balanças de poderes, não é de esperar que a China, a Rússia e a Índia, sejam quais forem os regionalismos em que se encontram envolvidos, excluam dos seus conceitos estratégicos uma aproximação entre as duas balanças, e portanto visando o fortalecimento individualizado da sua capacidade global.
Para exemplo serve o facto de a China ter mostrado a bandeira ao lançar o seu primeiro porta-aviões, e ao mesmo tempo desenvolver uma evidente política recompensada de expansão económica global, em que Portugal e os países de língua portuguesa estão claramente incluídos desde 2005.
Países como a Rússia e a China não é fácil que deixem de incluir no seu conceito de soberania a exclusão do direito de terceiros terem interferência na sua jurisdição interna, por muito que o declínio económico, mas não a vontade de recuperação, se manifestasse.
Nos países de língua portuguesa, foi talvez o presidente Lula quem mais francamente deu expressão política a estas questões, ao falar em nome da chamada "segunda geração de potências emergentes", mas pondo o acento na soberania do Brasil e na urgência de princípios justos no multilateralismo económico.
Tudo aponta pois no sentido de que a redistribuição mundial do poder, em qualquer das balanças, dá sinais de uma concepção de justiça que se apoia na solidariedade regional para viabilizar uma agenda mundial. Ora, a Europa, não obstante a sua dimensão geoeconómica, tem experiência próxima suficiente para que se torne evidente que a regionalização, chamada União, é uma definição indispensável para ter voz na globalização em progresso, sem ter poder, ainda assim, para desconhecer a inquietação da desconexão com a passada capacidade estratégica. Tendo em conta que qualquer desequilíbrio, mesmo vindo do fraco ao forte, como parece emergir na sua fronteira a leste, poderá não dar tempo para lamentar os descuidos com a sua própria unidade.
Adriano Moreira
Puskas fez mais do que dar susto ao Benfica
De Zsa Zsa Gabor a Soros, passando por Liszt, Pulitzer e Robert Capa (na realidade Endre Ernö Friedmann), o que não falta são húngaros célebres. Mas Puskas é único no imaginário da nação. Por isso, desde 2006 está sepultado na catedral de Budapeste, que acolhe a mão mumificada de Santo Estêvão, o fundador da Hungria. Homenagem ao futebolista, mas sobretudo ao homem que encarnou a tragédia do seu povo no século XX. E cujo mito é exportado nas T-shirts e canecas com foto vendidas a turistas.
Aos portugueses, Puskas lembra em especial a final dos Clubes Campeões de 1962. Marcou três golos, mas o Benfica, já com Eusébio, venceu por 5-3 o Real Madrid e somou a segunda taça europeia. Ora, é no salto de Budapeste até à capital espanhola que se oculta uma odisseia que só se distingue da de milhares de húngaros pelo final feliz.
Ainda se conta na Hungria que o pequeno Puskas (1,70 m) nunca se intimidou com os poderosos. "Pouco dinheiro, pouco jogo", disse a um burocrata que exigia mais sucessos no Honved e na selecção. A frase ficou. E os resultados nunca faltaram ao futebolista.
Campeões olímpicos em 1952, os húngaros foram desafiados para Wembley, nesse "O Jogo do Século" no dizer dos tablóides londrinos. Em Budapeste, continua-se a vender o vídeo que mostra Puskas e camaradas a vencer por 6-3 a Inglaterra, derrota caseira inédita para os inventores do futebol. Depois veio o Mundial de 1954, atropelando sul-coreanos (9-0) e alemães (8-3). Lesionado, Puskas voltou para a final, novo embate com a Alemanha. E como as boas histórias nunca são perfeitas, os húngaros perderam por 3-2. Chorou-se na Hungria, nação cercada há mil anos por germânicos, eslavos e latinos.
Se no final da Primeira Guerra Mundial a Hungria perdeu metade do território, no final da Segunda assistiu à ocupação soviética. Porém, em 1956 uma revolta popular, apoiada por figuras do regime, quis expulsar os russos, tal como no passado correram com turcos e austríacos. Os tanques soviéticos provaram ser mais fortes e Puskas optou pelo exílio. Proibido de jogar pela FIFA, após queixa por deserção, viveu tempos amargos até o Real o chamar. Perdeu os 20 quilos a mais e tornou-se o parceiro de Di Stéfano.
O caso Puskas foi uma machadada no prestígio do Bloco Soviético. E o jogador só seria autorizado a regressar com a mulher e a filha já nos anos 80, quando os comunistas promoviam a democratização. O funeral, há seis anos, teve honras militares, celebração oferecida por um país ao filho pródigo. Uma Hungria que agora, por causa da retórica nacionalista e autoritária do Governo, concentra as críticas dessa União Europeia a que se juntou entusiasmada em 2004.
Como Puskas, os netos dos cavaleiros magiares vindos das estepes gostam de correr livres pelo campo. Fazê-los sentir-se cercados talvez se revele um autogolo da Europa.
Leonídio Paulo Ferreira
Feriados para quê?
Não esperava voltar aos feriados. Se volto, é por causa da troika e do debate que se gerou. Não creio que o atraso nacional se deva propriamente aos feriados ou que seja a sua supressão que nos vai fazer dar um salto em frente. As razões do atraso - a ordem é arbitrária - são mais fundas: sem negar manchas felizes de excelência, uma educação coxa; falta de produtividade; não temos uma cultura do trabalho - a religião também influenciou; uma industrialização atrasada; o velho encosto ao Estado protector, que engordou desmesuradamente; incompetência na governação; assimetrias sociais gritantes; a corrupção e a aldrabice atávicas - não apareceram agora, por causa do fisco, mais de cem mil filhos inexistentes, e, nos centros de saúde, dois milhões de utentes-fantasmas?; excesso de administradores nas empresas públicas, com privilégios e prémios imerecidos; justiça lenta e sentida como desigual; desemprego galopante; uma multidão ondulante pendurada da política e dos partidos; cumplicidades entre a política e interesses privados... Quando se lê o estudo recente "A Qualidade da Democracia em Portugal: a Perspectiva dos Cidadãos", há razões sérias para preocupação.
Mas compreendo até certo ponto o projecto em curso, sobretudo porque há a tendência para as "pontes" e todo o problema dos gastos por causa da produção em cadeia.
Claro que o homem precisa de trabalhar. Essa é mesmo uma das suas características: é transformando o mundo que se humaniza. E esta relação com o mundo é mais do que uma relação de trabalho para a produção de bens para a subsistência, porque o trabalho é também realização própria, social e histórica, já que é construindo o mundo que a humanidade ergue a sua história de fazer-se. Cá está: o desemprego não é então dramático apenas por colocar em risco a subsistência, mas também a realização de si e o reconhecimento devido ao facto de contribuição na obra comum. Portugal precisa de responsabilidade no trabalho, de boa gestão, de educação e formação excelentes, de iniciativa e empreendimento, justiça social, estímulos salariais.
Mas o ser humano não se define apenas pelo trabalho. A sua relação com o mundo e com os outros é também de gáudio, de gratidão, de criação, de contemplação da beleza. O seu ser não se esgota na produção: destrói-se a si próprio, quando vive para sobreviver. Pelo contrário, sobrevive para viver, e viver tem em si a sua finalidade, e, nesse viver, estão presentes e gozosos a festividade, o "luxo", o gratuito, a alegria genuína e expansiva de ser, o inútil do ponto de vista da produção - "o fascinante esplendor do inútil", escreveu George Steiner.
Feriado quer dizer, atendendo ao étimo, precisamente dia festivo. Vale em si mesmo e por si mesmo. Tem a sua finalidade em si próprio e não é meio para outra coisa, concretamente para que os trabalhadores recuperem forças para poderem trabalhar outra vez e mais. É da natureza do feriado ser um acontecimento não programado: é um "luxo", uma "graça" inesperada. Para haver tempo para a família e o homem lembrar-se de que é criador festivo e não simples besta de carga.
Dimensão essencial do feriado é também a comemoração de um acontecimento importante, constituinte da identidade de um povo. Lá está a memória, a história e a simbólica.
No que se refere aos chamados "feriados religiosos", julgo que a Igreja lidou mal com o problema, ao situar-se no plano de reivindicação perante o Estado: dois feriados religiosos face a dois civis. No quadro de boas relações mútuas, a Igreja não pode nem deve colocar-se no plano da igualdade com o Estado, pois são ordens diferentes.
Deveria antes ir pela positiva e situar-se no plano daqueles feriados que, cultural e historicamente, estão para lá das pessoas religiosas, nos quais os portugueses em geral se vêem incluídos. Assim, a Páscoa celebra-se ao domingo. O Natal também é a festa da família. O dia dos Santos e dos Defuntos refere-se à memória, ao confronto com a morte e ao sentido da vida. A Imaculada Conceição é a Padroeira e lembra as mães. Na Sexta-Feira Santa, celebra-se o melhor: o amor, a entrega, a generosidade.
Anselmo Borges
O teste definitivo
Os temas da família são os que mais dividem o nosso tempo. Numa época que aceita pacificamente a liberdade, mercado e democracia, antes tão controversos, é nas questões do casamento, nascimento e morte que se travam os combates culturais. Mas aí existe um teste decisivo.
Portugal anda há muito a reboque das posições extremistas do Bloco de Esquerda. Em poucos anos a legislação saltou de uma atitude equilibrada no quadro mundial para soluções radicais na ponta do espectro. Até há meses a explicação podia ser a vacuidade de valores e oportunismo táctico do Governo Sócrates, cuja irresponsabilidade aliás foi geral. Mas esta explicação conveniente e simplista deve ser abandonada. Vigora um governo diferente e a situação, não só não melhorou, mas agravou-se.
O edifício legal antifamília, abusivamente construído pela maioria socialista, mantém-se intocado sem perspectivas de revisão. Pior, permanece toda a prática administrativa e financeira que aproveita esses diplomas para ir subsidiando o aborto, minando o casamento, prejudicando as famílias numerosas, anulando a liberdade educativa. Sobretudo, foi dada continuidade à cavalgada infame, abrindo-se agora a porta a filhos de mães múltiplas.
Perante tal realidade muitos alarmam-se ou desesperam, mas sem justificação. Vivemos uma vaga cultural, como tantas que as gerações anteriores enfrentaram. Hoje é a defesa da família, há cinquenta anos a empresa livre, há cem o voto das mulheres, há duzentos a extinção da escravatura. Em todos os casos havia uma linha ideológica que parecia dominante, imparável, avassaladora, mas que o tempo se encarregou de esgotar. No embate, o choque surge insuportável e definitivo, e muitos cedem, desviam-se, fogem. Depois, como nas violentas ondas do mar, tudo se esfuma.
Um exemplo nosso serve bem de ilustração. A 11 de Abril de 1975 CDS e PPD assinaram, junto com PCP, FSP, PS e MDP/CDE, o "Pacto MFA-Partidos", que preconizava a "continuação da revolução política, económica e social iniciada em 25 de Abril de 1974, dentro do pluralismo político e da via socializante". Hoje, quando sociedade sem classes e a ditadura do proletariado são personagens de pantomima, parece grotesco que partidos responsáveis tenham caído aí. Mas quem viveu esses tempos dramáticos entende-o bem. Daqui a 37 anos os mesmos partidos envergonhar-se-ão das actuais cedências no campo familiar, tanto quanto hoje se sentem embaraçados pelos compromissos do Verão quente.
Como lidar com uma vaga cultural? Esbracejar face à onda é tolice e fugir cobardia. Devem evitar-se a atitude apática e facilitista, que escamoteia a gravidade do tema em nome da paz podre, e o fanatismo intolerante, que transforma essa gravidade em agressão. Nestas discussões vitais existem três exigências básicas. Primeiro ter ideias claras e opiniões firmes, ao nível da importância do assunto, com argumentos sólidos e elaborados para as suportar. Depois respeitar sempre os opositores, por mais chocantes que sejam as suas posições, procurando um diálogo sereno e profundo. Acima de tudo, deve reinar a certeza que no fim a verdade triunfará. Lutamos, não pelo futuro que só pode ser melhor, mas pelas vítimas pontuais de um mal sem hipóteses.
O Pacto MFA-Partidos não teve consequências por ser parte da vaga marxista que já se aproximava do fim, após rugir há cem anos. Mas os ataques à família ainda crescem imparáveis para o auge. Será a tibieza do actual Governo mais parecida com os Acordos de Munique de 29 de Setembro de 1938, em que tímido Neville Chamberlain cedeu à violência triunfante de Hitler, precipitando como cúmplice a futura catástrofe?
A onda lasciva está mais perto do fim do que parece. Já chegou à velhice a geração do amor livre, Woodstock e Maio de 68. E será a velhice mais longa e solitária de sempre. Com uma pesada herança de famílias desfeitas, filhos e netos alheios ou não nascidos, promiscuidade, traição, luxúria, enfrenta agora o teste definitivo. As gerações seguintes aprenderão depressa esta triste lição.
O espírito de Abril
O acordo de concertação social assinado no dia 18 é um documento decisivo da nossa história recente. Isto só se entende considerando a essência desta crise.
Muitos tomam a recessão mundial como financeira, acusando dela bancos e agências de rating. Têm razão, mas esquecem que países com crescimento sólido, como Irlanda, Bélgica e Reino Unido, não são incomodados apesar de dívidas maiores que a nossa. O fundo do problema é pois económico e social.
O desenvolvimento que o mundo vive desde a revolução industrial tem tido várias fases. Esta é dominada por dois choques principais, a expansão da China e Índia e a revolução informática. Estes avanços criaram um dos momentos mais maravilhosos da humanidade, com enorme progresso e redução espantosa da pobreza mundial. Como não há almoços grátis, este desenvolvimento tem custos, alargando o fosso de rendimentos no Ocidente, de onde sai a recessão e a dívida.
Os mecanismos são evidentes Os trabalhadores chineses concorrem com o trabalho não especializado na Europa e EUA, enquanto a sociedade da informação elimina empregos de escritório e beneficia efusivamente o talento na gestão, arte, finanças, desporto, computação, etc. Isto espreme os salários baixos, reduz os lugares intermédios e premeia alguns ricos. As dificuldades de crescimento vêm da reestrutação económica imposta pelo mercado global, enquanto o endividamento surge de políticas e expedientes para amaciar a vida dos mais atingidos. Foi o incentivo político à aquisição de casa pelos pobres que criou o subprime nos EUA.
A questão decisiva deste tempo é, portanto, social. Portugal é um caso paradigmático. Na "década perdida", além da estagnação ser disfarçada pela dívida externa que agora nos arruína, íamos caindo numa das maiores desigualdades europeias, como mostram estudos recentes. Mas é preciso ver que esses estudos têm dados anteriores à troika, que está cá só há dez meses. O fosso entre ricos e pobres só pode resultar de quinze anos de políticas socialistas, que diziam defender os trabalhadores, combater a pobreza e construir a sociedade justa. Este aparente paradoxo é compreensível ao notar que as tais políticas bem intencionadas acabavam por usar os impostos de todos (sobretudo pobres) para beneficiar certos grupos, próximos do Estado. Os últimos anos reforçaram o processo, pois a crise começou em 2008, com falências e desemprego, mas funcionários e pensionistas estiveram incólumes três anos, até à chegada da troika.
O terrível choque no Ocidente, como em Portugal, impõe difícil ajustamento para recuperar uma sociedade justa e dinâmica, adaptada ao novo mundo global. Isso exige medidas sérias e equilibradas das elites e governos, para eliminar privilégios, combater a corrupção, apoiar os pobres, flexibilizar a economia. Mas exige também da sociedade serenidade e solidariedade, suportando os inevitáveis sacrifícios sem perder o rumo.
Percebe-se perfeitamente a irritação das populações pela austeridade e perda de direitos exigida na flexibilização. Revoltas, greves e subida dos radicalismos, bom como sonhos de revoluções e sociedade ideal, são compreensíveis. Robespierre, Marx e Lenine viveram tempos destes e hoje a Grécia envereda pelo mesmo rumo violento. Mas a reacção brutal trouxe sempre o desastre.
Existem alternativas, como a serena "revolução dos cravos". Comparada com casos paralelos, nacionais e estrangeiros, o 25 de Abril destaca-se pela sensatez. Em particular, na confusão revolucionária de 1974-75 os salários reais subiram 10% acumulados, estrangulando a economia. Em seguida aconteceu algo único na história: um país democrático, com sindicatos livres, teve o patriotismo de suportar uma queda acumulada de 12% nos salários reais de 1976-79, recuperando o equilíbrio.
O choque social destes anos será terrível. O nosso futuro depende de Portugal cair na revolta, como Marx sugeria e a Grécia mostra, ou enfrentar as dificuldades com força e serenidade. O acordo de dia 18 prova que ainda está vivo o espírito de Abril.
João César das Neves
O conjunto de circunstâncias que obrigam a prestar cuidados ao processo da unidade europeia faz destacar a questão de prever, com a hesitação dos tempos, em que medida os chamados poderes emergentes tendem para mudar a ordem mundial ou, talvez com mais rigor, para introduzir uma ordem na situação caótica existente.
No que respeita à ordem que se imaginou ressurgir, a partir da Carta da ONU, depois do fim da guerra fria, o facto que pareceu mais saliente foi a chamada desconexão entre a geopolítica, até então dominante, e a geoeconomia. No caso dos EUA o facto parece evidente, tendo em vista que a Europa, embora em crise, representa mais de um terço do comércio mundial (Milani), e que os poderes emergentes crescem de maneira visível.
Quando, em 2011, Jim O'Neill reuniu no termo BRIC a referência ao grupo constituído pelo Brasil, Rússia, Índia e China, previa a separação da geopolítica e da geoeconomia mundiais, mas também implicou em tal observação o facto de um pluralismo de regionalismos vir a pesar em qualquer redefinição da ordem mundial que falta.
Logo o G8 da época poderia ser visto como um regionalismo que defrontava, sem que a inovação estratégica, se existente, tivesse facilmente conseguido uma coerência interna dificultada pela heterogeneidade das tradições, dos Estados envolvidos, e de facto pouco de novo apareceu na formação de novas entidades politicamente plurais.
Para os observadores que coloquem a geoeconomia como abrangente da problemática dominante, a questão da geoestratégia, em mudança também acelerada, desde o fim da guerra fria, pode não aparecer como uma dificuldade maior. Nessa perspetiva, até uma espécie de diferenciação económica poderia enriquecer tal espécie de regionalização dos agentes da nova ordem em vista, por exemplo, o Brasil pondo o acento tónico nos produtos agrícolas, a Índia na área informática, a China para os produtos manufacturados.
Mas é difícil prever e admitir que embora seja evidente a importância crescente da invocada desconexão entre a geopolítica e a geoeconomia, ou, usando termos mais clássicos, a diferenciação das balanças de poderes, não é de esperar que a China, a Rússia e a Índia, sejam quais forem os regionalismos em que se encontram envolvidos, excluam dos seus conceitos estratégicos uma aproximação entre as duas balanças, e portanto visando o fortalecimento individualizado da sua capacidade global.
Para exemplo serve o facto de a China ter mostrado a bandeira ao lançar o seu primeiro porta-aviões, e ao mesmo tempo desenvolver uma evidente política recompensada de expansão económica global, em que Portugal e os países de língua portuguesa estão claramente incluídos desde 2005.
Países como a Rússia e a China não é fácil que deixem de incluir no seu conceito de soberania a exclusão do direito de terceiros terem interferência na sua jurisdição interna, por muito que o declínio económico, mas não a vontade de recuperação, se manifestasse.
Nos países de língua portuguesa, foi talvez o presidente Lula quem mais francamente deu expressão política a estas questões, ao falar em nome da chamada "segunda geração de potências emergentes", mas pondo o acento na soberania do Brasil e na urgência de princípios justos no multilateralismo económico.
Tudo aponta pois no sentido de que a redistribuição mundial do poder, em qualquer das balanças, dá sinais de uma concepção de justiça que se apoia na solidariedade regional para viabilizar uma agenda mundial. Ora, a Europa, não obstante a sua dimensão geoeconómica, tem experiência próxima suficiente para que se torne evidente que a regionalização, chamada União, é uma definição indispensável para ter voz na globalização em progresso, sem ter poder, ainda assim, para desconhecer a inquietação da desconexão com a passada capacidade estratégica. Tendo em conta que qualquer desequilíbrio, mesmo vindo do fraco ao forte, como parece emergir na sua fronteira a leste, poderá não dar tempo para lamentar os descuidos com a sua própria unidade.
Adriano Moreira
Puskas fez mais do que dar susto ao Benfica
De Zsa Zsa Gabor a Soros, passando por Liszt, Pulitzer e Robert Capa (na realidade Endre Ernö Friedmann), o que não falta são húngaros célebres. Mas Puskas é único no imaginário da nação. Por isso, desde 2006 está sepultado na catedral de Budapeste, que acolhe a mão mumificada de Santo Estêvão, o fundador da Hungria. Homenagem ao futebolista, mas sobretudo ao homem que encarnou a tragédia do seu povo no século XX. E cujo mito é exportado nas T-shirts e canecas com foto vendidas a turistas.
Aos portugueses, Puskas lembra em especial a final dos Clubes Campeões de 1962. Marcou três golos, mas o Benfica, já com Eusébio, venceu por 5-3 o Real Madrid e somou a segunda taça europeia. Ora, é no salto de Budapeste até à capital espanhola que se oculta uma odisseia que só se distingue da de milhares de húngaros pelo final feliz.
Ainda se conta na Hungria que o pequeno Puskas (1,70 m) nunca se intimidou com os poderosos. "Pouco dinheiro, pouco jogo", disse a um burocrata que exigia mais sucessos no Honved e na selecção. A frase ficou. E os resultados nunca faltaram ao futebolista.
Campeões olímpicos em 1952, os húngaros foram desafiados para Wembley, nesse "O Jogo do Século" no dizer dos tablóides londrinos. Em Budapeste, continua-se a vender o vídeo que mostra Puskas e camaradas a vencer por 6-3 a Inglaterra, derrota caseira inédita para os inventores do futebol. Depois veio o Mundial de 1954, atropelando sul-coreanos (9-0) e alemães (8-3). Lesionado, Puskas voltou para a final, novo embate com a Alemanha. E como as boas histórias nunca são perfeitas, os húngaros perderam por 3-2. Chorou-se na Hungria, nação cercada há mil anos por germânicos, eslavos e latinos.
Se no final da Primeira Guerra Mundial a Hungria perdeu metade do território, no final da Segunda assistiu à ocupação soviética. Porém, em 1956 uma revolta popular, apoiada por figuras do regime, quis expulsar os russos, tal como no passado correram com turcos e austríacos. Os tanques soviéticos provaram ser mais fortes e Puskas optou pelo exílio. Proibido de jogar pela FIFA, após queixa por deserção, viveu tempos amargos até o Real o chamar. Perdeu os 20 quilos a mais e tornou-se o parceiro de Di Stéfano.
O caso Puskas foi uma machadada no prestígio do Bloco Soviético. E o jogador só seria autorizado a regressar com a mulher e a filha já nos anos 80, quando os comunistas promoviam a democratização. O funeral, há seis anos, teve honras militares, celebração oferecida por um país ao filho pródigo. Uma Hungria que agora, por causa da retórica nacionalista e autoritária do Governo, concentra as críticas dessa União Europeia a que se juntou entusiasmada em 2004.
Como Puskas, os netos dos cavaleiros magiares vindos das estepes gostam de correr livres pelo campo. Fazê-los sentir-se cercados talvez se revele um autogolo da Europa.
Leonídio Paulo Ferreira
Feriados para quê?
Não esperava voltar aos feriados. Se volto, é por causa da troika e do debate que se gerou. Não creio que o atraso nacional se deva propriamente aos feriados ou que seja a sua supressão que nos vai fazer dar um salto em frente. As razões do atraso - a ordem é arbitrária - são mais fundas: sem negar manchas felizes de excelência, uma educação coxa; falta de produtividade; não temos uma cultura do trabalho - a religião também influenciou; uma industrialização atrasada; o velho encosto ao Estado protector, que engordou desmesuradamente; incompetência na governação; assimetrias sociais gritantes; a corrupção e a aldrabice atávicas - não apareceram agora, por causa do fisco, mais de cem mil filhos inexistentes, e, nos centros de saúde, dois milhões de utentes-fantasmas?; excesso de administradores nas empresas públicas, com privilégios e prémios imerecidos; justiça lenta e sentida como desigual; desemprego galopante; uma multidão ondulante pendurada da política e dos partidos; cumplicidades entre a política e interesses privados... Quando se lê o estudo recente "A Qualidade da Democracia em Portugal: a Perspectiva dos Cidadãos", há razões sérias para preocupação.
Mas compreendo até certo ponto o projecto em curso, sobretudo porque há a tendência para as "pontes" e todo o problema dos gastos por causa da produção em cadeia.
Claro que o homem precisa de trabalhar. Essa é mesmo uma das suas características: é transformando o mundo que se humaniza. E esta relação com o mundo é mais do que uma relação de trabalho para a produção de bens para a subsistência, porque o trabalho é também realização própria, social e histórica, já que é construindo o mundo que a humanidade ergue a sua história de fazer-se. Cá está: o desemprego não é então dramático apenas por colocar em risco a subsistência, mas também a realização de si e o reconhecimento devido ao facto de contribuição na obra comum. Portugal precisa de responsabilidade no trabalho, de boa gestão, de educação e formação excelentes, de iniciativa e empreendimento, justiça social, estímulos salariais.
Mas o ser humano não se define apenas pelo trabalho. A sua relação com o mundo e com os outros é também de gáudio, de gratidão, de criação, de contemplação da beleza. O seu ser não se esgota na produção: destrói-se a si próprio, quando vive para sobreviver. Pelo contrário, sobrevive para viver, e viver tem em si a sua finalidade, e, nesse viver, estão presentes e gozosos a festividade, o "luxo", o gratuito, a alegria genuína e expansiva de ser, o inútil do ponto de vista da produção - "o fascinante esplendor do inútil", escreveu George Steiner.
Feriado quer dizer, atendendo ao étimo, precisamente dia festivo. Vale em si mesmo e por si mesmo. Tem a sua finalidade em si próprio e não é meio para outra coisa, concretamente para que os trabalhadores recuperem forças para poderem trabalhar outra vez e mais. É da natureza do feriado ser um acontecimento não programado: é um "luxo", uma "graça" inesperada. Para haver tempo para a família e o homem lembrar-se de que é criador festivo e não simples besta de carga.
Dimensão essencial do feriado é também a comemoração de um acontecimento importante, constituinte da identidade de um povo. Lá está a memória, a história e a simbólica.
No que se refere aos chamados "feriados religiosos", julgo que a Igreja lidou mal com o problema, ao situar-se no plano de reivindicação perante o Estado: dois feriados religiosos face a dois civis. No quadro de boas relações mútuas, a Igreja não pode nem deve colocar-se no plano da igualdade com o Estado, pois são ordens diferentes.
Deveria antes ir pela positiva e situar-se no plano daqueles feriados que, cultural e historicamente, estão para lá das pessoas religiosas, nos quais os portugueses em geral se vêem incluídos. Assim, a Páscoa celebra-se ao domingo. O Natal também é a festa da família. O dia dos Santos e dos Defuntos refere-se à memória, ao confronto com a morte e ao sentido da vida. A Imaculada Conceição é a Padroeira e lembra as mães. Na Sexta-Feira Santa, celebra-se o melhor: o amor, a entrega, a generosidade.
Anselmo Borges
O teste definitivo
Os temas da família são os que mais dividem o nosso tempo. Numa época que aceita pacificamente a liberdade, mercado e democracia, antes tão controversos, é nas questões do casamento, nascimento e morte que se travam os combates culturais. Mas aí existe um teste decisivo.
Portugal anda há muito a reboque das posições extremistas do Bloco de Esquerda. Em poucos anos a legislação saltou de uma atitude equilibrada no quadro mundial para soluções radicais na ponta do espectro. Até há meses a explicação podia ser a vacuidade de valores e oportunismo táctico do Governo Sócrates, cuja irresponsabilidade aliás foi geral. Mas esta explicação conveniente e simplista deve ser abandonada. Vigora um governo diferente e a situação, não só não melhorou, mas agravou-se.
O edifício legal antifamília, abusivamente construído pela maioria socialista, mantém-se intocado sem perspectivas de revisão. Pior, permanece toda a prática administrativa e financeira que aproveita esses diplomas para ir subsidiando o aborto, minando o casamento, prejudicando as famílias numerosas, anulando a liberdade educativa. Sobretudo, foi dada continuidade à cavalgada infame, abrindo-se agora a porta a filhos de mães múltiplas.
Perante tal realidade muitos alarmam-se ou desesperam, mas sem justificação. Vivemos uma vaga cultural, como tantas que as gerações anteriores enfrentaram. Hoje é a defesa da família, há cinquenta anos a empresa livre, há cem o voto das mulheres, há duzentos a extinção da escravatura. Em todos os casos havia uma linha ideológica que parecia dominante, imparável, avassaladora, mas que o tempo se encarregou de esgotar. No embate, o choque surge insuportável e definitivo, e muitos cedem, desviam-se, fogem. Depois, como nas violentas ondas do mar, tudo se esfuma.
Um exemplo nosso serve bem de ilustração. A 11 de Abril de 1975 CDS e PPD assinaram, junto com PCP, FSP, PS e MDP/CDE, o "Pacto MFA-Partidos", que preconizava a "continuação da revolução política, económica e social iniciada em 25 de Abril de 1974, dentro do pluralismo político e da via socializante". Hoje, quando sociedade sem classes e a ditadura do proletariado são personagens de pantomima, parece grotesco que partidos responsáveis tenham caído aí. Mas quem viveu esses tempos dramáticos entende-o bem. Daqui a 37 anos os mesmos partidos envergonhar-se-ão das actuais cedências no campo familiar, tanto quanto hoje se sentem embaraçados pelos compromissos do Verão quente.
Como lidar com uma vaga cultural? Esbracejar face à onda é tolice e fugir cobardia. Devem evitar-se a atitude apática e facilitista, que escamoteia a gravidade do tema em nome da paz podre, e o fanatismo intolerante, que transforma essa gravidade em agressão. Nestas discussões vitais existem três exigências básicas. Primeiro ter ideias claras e opiniões firmes, ao nível da importância do assunto, com argumentos sólidos e elaborados para as suportar. Depois respeitar sempre os opositores, por mais chocantes que sejam as suas posições, procurando um diálogo sereno e profundo. Acima de tudo, deve reinar a certeza que no fim a verdade triunfará. Lutamos, não pelo futuro que só pode ser melhor, mas pelas vítimas pontuais de um mal sem hipóteses.
O Pacto MFA-Partidos não teve consequências por ser parte da vaga marxista que já se aproximava do fim, após rugir há cem anos. Mas os ataques à família ainda crescem imparáveis para o auge. Será a tibieza do actual Governo mais parecida com os Acordos de Munique de 29 de Setembro de 1938, em que tímido Neville Chamberlain cedeu à violência triunfante de Hitler, precipitando como cúmplice a futura catástrofe?
A onda lasciva está mais perto do fim do que parece. Já chegou à velhice a geração do amor livre, Woodstock e Maio de 68. E será a velhice mais longa e solitária de sempre. Com uma pesada herança de famílias desfeitas, filhos e netos alheios ou não nascidos, promiscuidade, traição, luxúria, enfrenta agora o teste definitivo. As gerações seguintes aprenderão depressa esta triste lição.
O espírito de Abril
O acordo de concertação social assinado no dia 18 é um documento decisivo da nossa história recente. Isto só se entende considerando a essência desta crise.
Muitos tomam a recessão mundial como financeira, acusando dela bancos e agências de rating. Têm razão, mas esquecem que países com crescimento sólido, como Irlanda, Bélgica e Reino Unido, não são incomodados apesar de dívidas maiores que a nossa. O fundo do problema é pois económico e social.
O desenvolvimento que o mundo vive desde a revolução industrial tem tido várias fases. Esta é dominada por dois choques principais, a expansão da China e Índia e a revolução informática. Estes avanços criaram um dos momentos mais maravilhosos da humanidade, com enorme progresso e redução espantosa da pobreza mundial. Como não há almoços grátis, este desenvolvimento tem custos, alargando o fosso de rendimentos no Ocidente, de onde sai a recessão e a dívida.
Os mecanismos são evidentes Os trabalhadores chineses concorrem com o trabalho não especializado na Europa e EUA, enquanto a sociedade da informação elimina empregos de escritório e beneficia efusivamente o talento na gestão, arte, finanças, desporto, computação, etc. Isto espreme os salários baixos, reduz os lugares intermédios e premeia alguns ricos. As dificuldades de crescimento vêm da reestrutação económica imposta pelo mercado global, enquanto o endividamento surge de políticas e expedientes para amaciar a vida dos mais atingidos. Foi o incentivo político à aquisição de casa pelos pobres que criou o subprime nos EUA.
A questão decisiva deste tempo é, portanto, social. Portugal é um caso paradigmático. Na "década perdida", além da estagnação ser disfarçada pela dívida externa que agora nos arruína, íamos caindo numa das maiores desigualdades europeias, como mostram estudos recentes. Mas é preciso ver que esses estudos têm dados anteriores à troika, que está cá só há dez meses. O fosso entre ricos e pobres só pode resultar de quinze anos de políticas socialistas, que diziam defender os trabalhadores, combater a pobreza e construir a sociedade justa. Este aparente paradoxo é compreensível ao notar que as tais políticas bem intencionadas acabavam por usar os impostos de todos (sobretudo pobres) para beneficiar certos grupos, próximos do Estado. Os últimos anos reforçaram o processo, pois a crise começou em 2008, com falências e desemprego, mas funcionários e pensionistas estiveram incólumes três anos, até à chegada da troika.
O terrível choque no Ocidente, como em Portugal, impõe difícil ajustamento para recuperar uma sociedade justa e dinâmica, adaptada ao novo mundo global. Isso exige medidas sérias e equilibradas das elites e governos, para eliminar privilégios, combater a corrupção, apoiar os pobres, flexibilizar a economia. Mas exige também da sociedade serenidade e solidariedade, suportando os inevitáveis sacrifícios sem perder o rumo.
Percebe-se perfeitamente a irritação das populações pela austeridade e perda de direitos exigida na flexibilização. Revoltas, greves e subida dos radicalismos, bom como sonhos de revoluções e sociedade ideal, são compreensíveis. Robespierre, Marx e Lenine viveram tempos destes e hoje a Grécia envereda pelo mesmo rumo violento. Mas a reacção brutal trouxe sempre o desastre.
Existem alternativas, como a serena "revolução dos cravos". Comparada com casos paralelos, nacionais e estrangeiros, o 25 de Abril destaca-se pela sensatez. Em particular, na confusão revolucionária de 1974-75 os salários reais subiram 10% acumulados, estrangulando a economia. Em seguida aconteceu algo único na história: um país democrático, com sindicatos livres, teve o patriotismo de suportar uma queda acumulada de 12% nos salários reais de 1976-79, recuperando o equilíbrio.
O choque social destes anos será terrível. O nosso futuro depende de Portugal cair na revolta, como Marx sugeria e a Grécia mostra, ou enfrentar as dificuldades com força e serenidade. O acordo de dia 18 prova que ainda está vivo o espírito de Abril.
João César das Neves
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