Ora aí está um exemplo que os prostituídos linguísticos cá do burgo têm urgentemente que seguir: o principal jornal diário angolano, o Jornal de Angola, publicou na quarta-feira um editorial dedicado ao Acordo Ortográfico (AO), ao qual tece duras críticas, defendendo que «há coisas na vida que não podem ser submetidas aos negócios, por mais respeitáveis que sejam», pondo em causa futuras negociações. Segundo o jornal, é importante que todos os países «respeitem as diferenças e que ninguém ouse impor regras só porque o difícil comércio das palavras assim o exige», arrebatando assim o argumento de que o AO servirá para aproximar as comunidades de língua portuguesa. «Escrevemos à nossa maneira, falamos com o nosso sotaque, desintegramos as regras à medida das nossas vivências, introduzimos no discurso as palavras que bebemos no leite das nossas Línguas Nacionais», defende o editorial, acrescentando que «do "português tabeliónico" aos nossos dias, milhões de seres humanos moldaram a língua em África, na Ásia, nas Américas». Exemplificando, o jornal recorre ao quotidiano dos jornalistas: «Ninguém mais do que os jornalistas gostava que a Língua Portuguesa não tivesse acentos ou consoantes mudas. O nosso trabalho ficava muito facilitado se pudéssemos construir a mensagem informativa com base no português falado ou pronunciado. Mas se alguma vez isso acontecer, estamos a destruir essa preciosidade que herdámos inteira e sem mácula. Nestas coisas não pode haver facilidades e muito menos negócios. E também não podemos demagogicamente descer ao nível dos que não dominam correctamente o português». O português falado em Angola tem, segundo o jornal, características específicas, «uma beleza única e uma riqueza inestimável», que devem ser mantidas, assim como tem o português do Alentejo ou o português da Bahia. «Todos devemos preservar essas diferenças e dá-las a conhecer no espaço da CPLP», atesta, concluindo que não é aceitável que através de um qualquer acordo a grafia seja esquecida: «Se queremos que o português seja uma língua de trabalho na ONU, devemos, antes do mais, respeitar a sua matriz e não pô-la a reboque do difícil comércio das palavras».A decisão de adopção da merda do AO foi tomada em Conselho de Ministros a 25 de Janeiro de 2011 e começou oficialmente a ser adoptado a 1 de Janeiro de 2012, estando prevista a aplicação generalizada do acordo para 2014. Existem ainda instituições que não o aplicaram, como a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa ou o Centro Cultural de Belém, que voltou atrás na decisão depois do novo presidente, Vasco Graça Moura, ter ordenado que todos os conversores, ferramenta informática que adapta os textos ao acordo, fossem desinstalados dos computadores da instituição. Desde então, a discussão tem estado em aberto, tendo surgindo cada vez mais vozes contra a aplicação do AO. Angola e Moçambique ainda não o ratificaram. Será que o vão fazer?
Fim do AO, já!!
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